Pipa — Voo: Primeiras impressões
No post de hoje, trago minhas primeiras impressões depois de ler Pipa — Voo, a mais nova graphic MSP, escrita e desenhada pela Helô D'angelo. Prometo que não vou contar a história inteira para não estragar a experiência de ninguém, mas já aviso que irei comentar e mostrar alguns trechinhos, ok?
Antes de mais nada, eis a sinopse:
Depois de anos de namoro, Pipa ouve de Zecão que "não dá mais". Incrédula, a jovem decide fazer de tudo para reconquistar seu amor. Mas será que este é o melhor caminho a tomar?
Que símbolos são esses?
Pela primeira vez, o texto inicial de uma graphic MSP não é assinado pelo Mauricio, e sim por sua filha Marina, atual diretora executiva da MSP. Isso não é uma surpresa para quem acompanha a publicação da Turma da Mônica Jovem. Desde novembro de 2025 (edição nº 51 da 3ª série), a sessão "Fala, Mauricio" foi substituída pelo "Fala, Marina", e é ela quem assina os textos finais das edições.
Como o texto de abertura também faz parte da graphic, acho válido falar sobre ele neste post. Seguindo o exemplo do pai, a Marina entrega alguns parágrafos mornos para introduzir a história. Vou me ater a comentar apenas o primeiro deles, que reproduzo a seguir:
"Alguns bons anos atrás, lá no início da década de 1960, perguntaram ao meu pai, na redação da Folha, se ele era misógino, uma vez que não tinha personagens mulheres. A primeira reação dele ao chegar em casa? Olhar o dicionário para descobrir o significado daquele termo. E não gostou nem um pouco. Por isso, como resposta, passou a criar personagens que viraram símbolos de força, como a Mônica, a Magali, a Lucinda, a Thuga, a Tina... e a Pipa, a protagonista desta edicão! [sic]"
Já ouvi essa anedota várias vezes. Inclusive, esta cena é retratada no filme biográfico do Mauricio de Sousa, lançado em 2025. É admirável o esforço da empresa em livrar seu fundador da pecha de misógino. Pobre Mauricio, tão inocente!
Acho curioso citar personagens como a Thuga e a Lucinda como símbolos de força feminina. Em primeiro lugar, muitos fãs sequer as conhecem. E os que conhecem, sabem que sua participação nas histórias se resumia a correr atrás do Piteco e Horácio, respectivamente. Girl power!
É importante ressaltar que a Tina e a Pipa só surgiram no começo da década de 70, um pouquinho depois daquela acusação de misoginia. Seria loucura imaginar que tenham sido necessários aproximadamente dez anos para desenvolver, com muita calma e pesquisa, duas personagens femininas com personalidades marcantes e bem construídas, fugindo de estereótipos machistas? E que, logo antes da estreia desses dois ícones feministas, todo o material produzido foi perdido sob circunstâncias misteriosas, de modo que não restou alternativa a não ser publicar a Tina e a Pipa com base em antigos rascunhos estereotipados que de alguma forma sobreviveram à tragédia? Talvez, mas nunca se sabe.
Depois de tantos anos, a MSP ainda tem muito o que melhorar no quesito representatividade feminina, por mais que nos tentem convencer do contrário. Mas este post não é sobre isso. Hoje, temos a felicidade de ler cada vez mais histórias excelentes protagonizadas e produzidas por mulheres, e Pipa — Voo é uma delas. E é sobre isso que vamos falar!
O céu é o limite
Quero começar falando do aspecto visual do quadrinho, que é belíssimo. O estilo do desenho e as cores combinam demais entre si, e cada página é mais linda do que a outra. O capricho vai desde as roupas dos personagens até os mínimos detalhes dos cenários. Em vários trechos da graphic, eu parei para apreciar a composição dos quadros (com a cara quase enfiada dentro do livro), até porque parte da história é contada através desses detalhes. Aliás, a própria capa já nos dá uma prévia de como as páginas internas vão ser. É tudo muito rico e de encher os olhos!
Eu comprei a edição com capa comum, que não tem a guarda ilustrada da versão em capa dura, o que é uma pena, já que essas ilustrações também complementam o roteiro.
Inclusive, a autora postou um vídeo em seu Instagram onde ela mostra um pouco da graphic e diz que colocou várias referências na edição, tanto à cultura pop, quanto aos seus amigos. As únicas pessoas que eu reconheci foram o também quadrinista Monge Han, o Sidão, a própria Helô, e o companheiro dela, Daniel Cesart. Ah, e tem um homem usando uma camiseta do capirotinho, personagem do Guilherme Infante!
Obs.: também tem muita referência ao universo da MSP, mas eu vou falar disso mais pra frente.
Outra coisa que me chamou a atenção foi o fato da Helô aproveitar o seu traço mais cartunesco para brincar com as reações da Pipa, que faz caras e bocas. A personagem tem o direito de ser expressiva e demonstrar seus sentimentos de maneira intensa, diferente de tantas protagonistas femininas que vemos por aí. O choro dela nem sempre é bonito — a maquiagem borra, o cabelo fica bagunçado, o rosto faz caretas involuntárias — e por isso mesmo é tão humano.
Nesse sentido, confesso que esperava a presença de um personagem LGBTQIA+ com destaque. Considerando que a Helô aborda temas relativos à comunidade com naturalidade e responsabilidade (como em sua recente série de quadrinhos sobre o lenacapavir, por exemplo), e que tivemos uma personagem abertamente lésbica na graphic da Tina, fiquei surpresa de o mesmo não acontecer aqui. Até achei possível que o Caio aparecesse, mas não foi dessa vez (há um personagem secundário com esse mesmo nome, mas sua aparência é diferente e ele demonstra interesse por mulheres). Tem sim algumas pitadas de ✨ purpurina ✨ aqui e ali, que podem disparar o gaydar chamar a atenção dos leitores mais atentos, mas é algo discreto e sem impacto na trama.
E já que eu mencionei a trama: não é só de lindas cores e desenhos incríveis que essa graphic se sustenta, não! O roteiro não é mirabolante, e nem precisa ser. A genialidade de Pipa — Voo está na maneira pela qual retrata a realidade misógina e cruel em que vivemos. Aqui, a Helô conta uma história que infelizmente eu conheço bem de perto.
Já convivi com a Pipa, Zecão, Tina e Rolo, encarnados em amigos de faculdade ou colegas de trabalho, e reconheço partes deles em mim. A mãe e o pai da Pipa, Julieta e Narciso, são parentes meus. Nenhum desses personagens me é estranho, porque todos eles são muito reais!
Divertida e comovente nos momentos certos, a história traz diálogos fluidos permeados por reflexões e críticas importantes. Uma conversa da Pipa com a Tina perto do fim levantou um ponto no qual eu nunca tinha parado para pensar. Vivendo e aprendendo! Alguns trechos e falas podem parecer bem óbvios para quem já está familiarizado com as questões de gênero abordadas pela autora. Contudo, em tempos onde muitos têm dificuldade de interpretar textos e os discursos machistas estão cada vez mais populares, talvez o didatismo seja necessário. Com isso, não quero dizer que o roteiro não tem sutilezas! Há muitas coisas nas entrelinhas, e só em um monólogo no final eu achei que o destaque de algumas palavras foi excessivo, mas isso não invalida de forma alguma todo o trabalho desenvolvido até ali.
Parte das questões vividas pela Pipa me lembraram as da Aninha quando ela termina o namoro com o Titi, lá na edição 31 da primeira série de Turma da Mônica Jovem. Mas, atenção: apesar da temática parecida, são duas histórias com abordagens bem diferentes!
Tem quem não defina o namoro da Pipa com o Zecão como tóxico. Pelo contrário, há quem olhe para eles e pense "uau, meta de relacionamento!". Afinal, é um casal que, apesar das brigas, permanece unido ao longo dos anos. Amar é sobre isso, não é? Perdoar, conciliar, acolher e ceder. Tolerar os desconfortos e fazer de tudo para agradar, em nome do tão almejado felizes para sempre. Mesmo que isso signifique abrir mão de seus gostos, planos, ideais, saúde e sonhos. Alguns sacrifícios são necessários, certo? Pelo menos, é o que dizem. Pipa — Voo nos convida a refletir sobre o quão prejudicial é viver em função daquilo que os outros esperam de nós, especialmente num contexto de busca incansável pela validação e atenção masculinas.
Outra problemática abordada na obra é a gordofobia. Nos gibis, existem incontáveis historinhas onde a Pipa é ridicularizada e diminuída por causa do seu peso. Muitas vezes, tentando ser aceita, ela cede à pressão externa e adota métodos radicais (geralmente dietas super restritivas) para emagrecer em pouco tempo. Já na graphic, Pipa não está isenta de ataques gordofóbicos, que partem de desconhecidos, bem como de supostas amigas, parentes e futuros profissionais de nutrição. Dá para imaginar como isso afeta a autoestima dela. E qual a solução? Se esta fosse uma comédia romântica dos anos 2000, todos os problemas da Pipa se resolveriam quando ela começasse a vestir tamanho 36. Felizmente, a Helô foge desse e de outros clichês ultrapassados e degradantes. É abraçando a sua identidade que a Pipa encontra forças para se valorizar, sem vergonha ou medo de mostrar seu corpo gordo!
"Opa," alguém pode estar pensando, "eu conheço essas palavras: 'misoginia', 'gordofobia', 'machismo', 'diversidade', 'protagonismo feminino'... e eu sei o que elas significam! Isso é CULTURA WOKE!! Quer dizer que essa história só tem LACRAÇÃO, e eu ODEIO LACRAÇÃO!!" Sinceramente, se você pensa assim, estou surpresa de você ter chegado até aqui, mas obrigada pela leitura! Espero conseguir te ajudar a superar esses preconceitos.
Bom, vamos lá: isso pode ser chocante para algumas pessoas, mas feminismo não é a crença de que homens = ruim e mulheres = bom. Juro! É um pouco mais complexo do que isso, na verdade. Lendo a HQ, você pode entender melhor. Nela, temos personagens femininas que erram, e personagens masculinos que acertam, e vice-versa. Afinal, são todos humanos, sujeitos a falhas e capazes de fazer o bem e o mal na mesma medida.
Algo muito positivo é a maneira como a Helô retrata a amizade entre a Pipa e o Rolo. Sim, a amizade entre homens e mulheres pode e deve existir! Outro estereótipo de gênero quebrado é a ideia de que homens não choram. Na realidade, essa é uma boa maneira de extravasar sentimentos, bem mais saudável do que xingar minorias ou se aliar a movimentos de extrema-direita. Mais um bom exemplo que a graphic nos dá é fazer terapia! Viu como quadrinhos podem ensinar lições valiosas?
Dito tudo isso, só falta destacar o excelente trabalho de pesquisa feito pela Helô, e o modo como ela inseriu tantas referências na história. Sério, fiquei impressionada! Não vou mostrar os quadrinhos citados nos Extras da edição, mas aqui estão algumas das referências que eu consegui pegar:
| História sem título, de Mônica nº 73 (Globo, 1993) |
| História Olhos nos olhos, por Fernanda Chiella e Raquel Alves, de MSP +50 (Panini, 2010) |
| História O que está insinuando?, de Mônica nº 153 (Globo, 1999) |
| História Dize-me o teu signo e te direi quem és!, de Mônica nº 21 (Globo, 1988) |
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Além disso, alguns dos personagens de outras graphics MSP são homenageados em Pipa — Voo:
Finalizo parabenizando e agradecendo à Helô D'angelo pela história que ela nos entregou. Já é uma das minhas graphics favoritas! Recomendo fortemente a leitura e espero que a Pipa alcance muitas pessoas durante seu voo!
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