Os caminhos trilhados antes da Bifurcação
"De um dos muitos Limoeiros alternativos, uma aventura do homem paralelo em busca do tempo perdido..." — esta é a sinopse de Bifurcação, a primeira one-shot da edição Labirinto do amor (TMJ 45 - 3ª série), roteirizada por Lederly Mendonça.
O título da história se mostrou bem adequado, já que após a conclusão da leitura, o público seguiu por dois caminhos bem opostos: alguns fãs ficaram bem insatisfeitos com o resultado final, enquanto outros viram uma boa ideia sendo desperdiçada no formato de one-shot, e gostariam que o roteiro tivesse mais páginas para ser melhor desenvolvido.
Para quem não leu ou não se lembra do que acontece em Bifurcação, aqui vai um resumo (spoilers a seguir!): em uma realidade alternativa, seu Cebola terminou o namoro com Maria (que, consequentemente, nunca se tornou a dona Maria Cebola) para seguir o seu sonho de se tornar um grande escritor de ficção científica. Dezessete anos depois, ele acaba de lançar o sétimo e último livro de uma série de best-sellers, cujo sucesso rendeu até mesmo uma adaptação seriada em live-action.
Se você se recorda da one-shot Autobiografia, você pode estar se perguntando como o seu Cebola foi capaz disso, já que ele tem o mesmo nível de redação que a renomada roteirista Flay.
| Ela deixa bastante coisa em aberto para a gente imaginar |
A explicação é muito simples: toda a série de livros foi baseada numa invenção criada pelo professor Spada — o estilete cósmico. Este objeto nada suspeito tem o poder de abrir portais para universos alternativos! E, por algum motivo, dentre todos os sete bilhões de habitantes do planeta Terra, o Spada decidiu revelar esta invenção fantástica apenas para o seu Cebola, que agora está lucrando em cima dessa ideia.
Assim, seu Cebola tem prêmios, dinheiro, sucesso e uma imensa dor de cotovelo — pois é, ele morre de saudades da ex. A dona Maria casou com um lutador de MMA e está grávida do primeiro filho. E, por mais que o término tenha sido ideia dele há quase duas décadas, o Cebola alternativo não está aceitando essa situação muito bem.
Enquanto isso, no bairro do Limoeiro que conhecemos e amamos, o seu Cebola que conhecemos e toleramos é atacado e substituído pela sua versão alternativa sem que ninguém perceba. Logo na primeira noite após a troca, quando o usurpador coloca sonífero na comida da "sua" família e a trancafia em um quarto para que fiquem sempre juntos, a gente percebe que esse daí é ainda pior que o original.
Falando nele, o seu-Cebola-pai-de-família é encontrado pelo professor-Spada-alternativo no universo alternativo. Rapidamente, Spada se dá conta de que aquele não é o seu amigo e ajuda o pobre sequestrado a retornar à sua vida e consertar a bagunça causada pela versão literária maligna.
Seu Cebola Bracho é derrotado pelo poder de uma bela frase de efeito (e um soco bem dado) e é levado de volta para a sua triste realidade. Seu Cebulina Martinez liberta sua família, que o recebe de braços abertos, mesmo sem saber que foram envenenados por uma versão alternativa dele. E fim.
Não tiro a razão de quem achou a história corrida. É bastante coisa para 30 páginas! Tanto é que este enredo originalmente foi desenvolvido em mais de 300 páginas, mas não pelo Lederly Mendonça. Estou falando do livro Matéria escura, de Blake Crouch.
Sinopse de Matéria escura:
Ficção científica eletrizante de Blake Crouch aborda realidades alternativas, caminhos não percorridos e questiona: você é feliz com a vida que tem?
O fim de tudo que Jason Dessen conhece e ama começa em uma noite fria de outubro. É apenas uma saída casual para celebrar a conquista de um amigo no bar perto de casa. Ao se despedir da esposa e do filho, ele não olha para trás.
Pouco tempo depois, raptado por um homem mascarado, Jason é levado para uma usina abandonada e deixado inconsciente. Quando acorda, um estranho sorri para ele, dizendo: “Bem-vindo de volta, amigo.”
Neste novo mundo, Jason leva outra vida. Sua esposa não é sua esposa, seu filho nunca nasceu e, em vez de professor numa universidade mediana, ele é um gênio da física quântica que conseguiu um feito inimaginável. Algo impossível. Será que é este seu mundo, e o outro é apenas um sonho? E, se esta não for a vida que ele sempre levou, como voltar para sua família e tudo que ele conhece por realidade?
Bifurcação e Matéria escura compartilham de algumas similaridades no início, mas não se preocupe: cada história segue por caminhos bem distintos a partir do sequestro do protagonista. Dessa forma, se a sinopse do livro chamou a sua atenção, vale a pena a leitura, pois Lederly não copia nada do desenvolvimento e conclusão de Blake (acredite se quiser, mas não existe estilete cósmico no livro). Ainda assim, a temática central segue a mesma em ambos os roteiros, trazendo uma reflexão sobre os caminhos que escolhemos na vida e os possíveis arrependimentos decorrentes dessas decisões.
A grande rede de referências e inspirações
O visual do professor Spada é uma das referências que Lederly faz ao livro que o inspirou, em uma clara alusão ao personagem Ryan Holder, cientista e colega de Jason:
Além das referências à Matéria escura, Bifurcação também bebe da fonte da própria MSP, relembrando uma história de 1989: Seu Cebola, seu passado o espera. O marido de Maria na realidade alternativa é Edi Enxofre, um lutador que a pediu em namoro na época do colégio, como mostrado na história de abertura de Cebolinha nº 31 (Globo).
Nesta história, ao ver a admiração de sua família por Edi Enxofre (cujo nome provavelmente é uma referência ao pugilista brasileiro Éder Jofre), seu Cebola se sente preterido e desafia o grande lutador para uma revanche.
Curiosamente, o título da história se inspira no filme Peggy Sue, seu passado a espera, de 1986, cuja sinopse é a seguinte:
Em 1985, após desmaiar durante uma festa de confraternização, uma mulher de 43 anos à beira do divórcio volta no tempo para 1960, época em que conheceu o futuro marido. Ela tem, então, a chance de transformar o curso de sua vida, decidindo se deveria casar ou não com o namorado de quem estava se separando.
Nota-se que a ideia central é bem diferente da história do seu Cebola! Entretanto, as duas obras também tratam (em maior ou menor grau) sobre os caminhos que percorremos durante as nossas vidas, as consequências de nossas escolhas e como podemos confrontar nosso passado, mas não podemos mudá-lo.
E, para concluir essa grande cadeia de referências: o filme é inspirado na canção de mesmo nome (em inglês, Peggy Sue got married) de Buddy Holly, lançada em 1957.
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